Evandro Carvalho

Jornalismo, contemporaneidade, cultura, curiosidades, debates. Ou, “Em terra de cego, que tem um olho não é visto com bons olhos”. Este blog contem os artigos do jornalista Evandro Carvalho. Seu objetivo é fazer uma leitura superficial de fatos e acontecimentos no Brasil e no mundo. A participação do leitor é muita bem vinda. Comente, corrija, critique.

Receituário de uma economia primata

A Embraer, uma das maiores fabricantes de aeronaves de pequeno porte do mundo, anunciou um corte de seu quadro de funcionários no último dia 20, antes do feriado de Carnaval. A empresa demitirá 4.270 trabalhadores, o que representa 20 % do universo total de seus empregados. A Embraer argumenta que o atual cenário econômico externo é o motivo pela dispensa, haja visto que o volume de suas exportações representa 93% de seu faturamento. O presidente da Embraer, Frederico Curado, disse que a decisão é irreversível, embora também tenha anunciado que a empresa não mais demitirá doravante e que medidas paliativas (manter os planos de saúde dos demitidos, por exemplo) serão adotadas.

O presidente Lula, que recebeu Curado em seu gabinete e chegou a pedir que a decisão das dispensas fosse revista, entende que o corte da Embraer foi o maior golpe refletido no Brasil em decorrência da crise econômica mundial, deflagrada ano passado. Sindicatos ligados à Força Sindical já anunciaram também que vão questionar na justiça as demissões da empresa fabricante de aeronaves.

Seguindo a máxima de que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, a Embraer transfere para seus trabalhadores o ônus provocado pela sangria desatada da crise dos mercados imobiliários norte-americanos. Infelizmente tem sido assim. No mundo afora e no Brasil as demissões têm sido constantes, destaque para a indústria automobilística – onde a degola parece não ter fim. As grandes corporações, das chamadas grandes economias, entendem que a culpa pela instabilidade de suas grandezas é da base da cadeia alimentar antropofágica do ideário globalizante: o trabalhador. Se as margens de lucros recuaram, mesmo que nem de longe se aproximem do prejuízo, o penalizado é sempre o trabalhador.

O caso da Embraer chama a atenção, pois suas vendas recuaram em 30% conseqüência de sua carteira de clientes, quase toda externa. Sugere mais uma vez que a crise no Brasil teve pouco efeito. Pamela Cox, vice-presidente do Banco Mundial para o Subcontinente e Caribe disse que “O Brasil sentirá menos a crise na América Latina” onde se projeta a sombria margem de crescimento de 0,3% em média para os países da região. Se as contas realmente vão mal, é preciso rever a dependência de mercados externos. O corte brutal e sumário de mão-de-obra faz parte do receituário da economia primata do modelo vigente em franca decadência.

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