Evandro Carvalho

Jornalismo, contemporaneidade, cultura, curiosidades, debates. Ou, “Em terra de cego, que tem um olho não é visto com bons olhos”. Este blog contem os artigos do jornalista Evandro Carvalho. Seu objetivo é fazer uma leitura superficial de fatos e acontecimentos no Brasil e no mundo. A participação do leitor é muita bem vinda. Comente, corrija, critique.

Grosseria sem limites

“Mercedes Sosa, a cantora do bumbo argentina. Dia 4, aos 74 anos, de doenças associadas ao subdesenvolvimento latino-americano, como o mal de Chagas, em Buenos Aires”. Este é o obituário que a revista Veja, a revista de maior circulação no Brasil e que se auto-proclama “indispensável” fez referência à morte de Mercedes Sosa, a “Voz da América”. Dispensável dizer, assim como a revista, a grosseria desferida de maneira lacônica a um dos ícones artísticos da América Latina. “Tudo” isso em nome da cruzada ideológica do grupo Abril.

Mercedes Sosa não foi só a cantora de bumbo argentina a qual a revista se refere. Ela já se apresentou na Capela Sistina, Coliseu de Roma e no badalado Carnegie Hall, na cidade de Nova York. Sua voz ecoou pelas Américas das angústias como um bálsamo aos povos reprimidos por metrópoles, ditaduras ou transnacionais dos ditos países desenvolvidos. Embora tenha afirmado a vida inteira de que seu ofício tão somente era cantar (e cantar de maneira belíssima como sempre o fez), não há como dissociá-la dos movimentos populares ou de esquerda de um modo geral, tão difundidos do Rio Bravo até a Terra do Fogo.

E nesse ponto a Veja não perdoa. Ao contrário de outros organismos de imprensa no Brasil (salvo as exceções), que fazem a propaganda ideológica da direita liberal de maneira velada, a Veja expõe as vísceras de seu discurso de extrema direita sem pudores, cerimônias e, em alguns casos, como este, sem o menor vestígio de decência. Tudo o que diz respeito às esquerdas de um modo geral, independente da manifestação, seja filosófica, intelectual ou até mesmo artística é motivo de escárnio, deboche, pilhagem e truculentos e articuladíssimos ataques. A Veja e o grupo Abril estão escrevendo um dos mais tristes capítulos da imprensa brasileira, quiçá do mundo.

Ao menos, o que não ocorre com frequência, a gritaria foi intensa. Seja na própria seção de cartas da revista, sejam jornalistas de outros veículos (inclusive do exterior) ou na vasta profusão de blog’s na Internet , este obituário causou indignação. Não se comenta, mas a campanha publicitária da revista em outras mídias sugere que a publicação não é “indispensável” e que, até mesmo, o mais ingênuo leitor sabe que falta hoje na revista o que muita gente Viu quando a mesma foi lançada há mais de 40 anos, a única coisa que transforma o jornalismo em algo imprescindível: a credibilidade.

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