Oct 30, 2009
Plástico, violento e virtual
A Guerra do Rio de Janeiro vitimou novos inocentes após o anúncio, coincidência (?), feito pelo Coi - Comitê Olímpico Internacional de que a cidade sediará em 2016 os Jogos Olímpicos. Os morros do Rio, ocupados por gente “expelida” das camadas sociais privilegiadas é a amostra dramática dos tortuosos e incertos caminhos por onde a civilização sugere apontar. Trata-se de um mundo regido pela égide frívola e plástica do consumo. A explosão da violência, em especial nos ditos países pobres e muitas vezes decorrente do narcotráfico, é um sintoma preocupante de que o “compro, logo existo” legitima e condiciona a existência ao poder de consumo.
O Brasil, recém-ingressado no denominado capitalismo de massa, é um exemplar significativo de país multi-étnico, multi-cultural e grande o suficiente para os fenômenos negativos da migração interna de grandes contingentes populacionais. Tais condições propiciaram os choques sociais. Expelidos pelos privilegiados, os ex-escravos não tiveram para onde correr; subiram o morro. A tragédia quotidiana do Rio de Janeiro já é centenária. O cenário de descontrole e anomia, que impera hoje, já foi apontado por várias correntes de pensadores há 40, 50 anos – em especial o Prof. português Boaventura de Souza Santos.
De igual forma outros grandes centros sangram a dramática sobrevivência de milhões que se amontoam no espaço conhecido como periferia. A ocupação desordenada destes espaços, impulsionada pelas migrações, traduz o quanto o Estado brasileiro esteve preocupado com a questão, hoje um caminho sem volta, problema insolúvel. Se antes o lugar (centro-periferia) constituía-se um problema sociológico, hoje as ações determinam a sorte do homo-sapiens do Século XXI. Sem barreiras físicas, o destino de milhões trafega em código binário pela Internet. É o que o geógrafo Milton Santos chamou de “forças cegas e poderosas” em seu célebre A Natureza do Espaço. Se a perspectiva do homem espacial sugeria um alento para a transformação do espaço, hoje não faz mais sentido. O homem virtual interage num novo conceito de espaço, desplugado do mundo real.
Como no México de Audous Huxley, a civilização será plástica, consumidora de SOMA e alheia a selvageria e violência da periferia. De nada se espera dela, assim como as proles descritas por George Orwell no distópico 1984 não se podia esperar. Se no Rio de Janeiro é desconcertante a disposição de suas belezas naturais ao lado das mazelas e misérias da favela, imagine o que está sendo embrionado pela globalização e sua Aldeia Global, tão bem alertada numa mesa de restaurante na cidade de Frankfurt em plena Segunda Guerra Mundial por Theodor Adorno.