Dec 2, 2009 0
Jornalismo de ficção
Jean Baudrillard, pensador francês falecido em 2007, afirmava categoricamente que a chamada Guerra do Golfo (1991) não existiu. Para ele o que a tevê americana mostrou, em especial a CNN e Peter Arnett, foi um grande vídeo-game. À luz dos fatos, a investida militar dos americanos no Iraque durou menos de 1 mês. Esta se resumiu a um intenso bombardeio aéreo sobre a cidade de Bagdá, o qual o Pentágono chamou de “Operação Tempestade no Deserto”, um bombardeio “cirúrgico” que preservou a patrimônio histórico/cultural da cidade. Depois de alguns dias, a infantaria se encarregou de fazer o resto da “limpeza”. Ao todo, apenas 36 soldados americanos morreram no “conflito”. Para Baudrillard a Guerra do Golfo não aconteceu e nunca existiu, pelo menos nos moldes convencionais. Foi uma criação da mídia.
O monumental jornalista Cláudio Abramo, falecido em 1987, fez a cobertura da Guerra Civil Espanhola. Relatou uma Barcelona maltrapilha, nos escombros. Descreveu um povo sem esperança, famélico, sem emprego. Informou sobre um país a beira do caos e da desgraça. O norte-americano John Reed, em seu relato jornalístico “10 dias que abalaram o mundo” descreveu a Moscou czarista, e efervescente nos bastidores, pouco antes da Revolução Russa de 1917. Euclides da Cunha, num português neologista quase indecifrável, relatou o homem Antônio Conselheiro na pele de um messias em Canudos e a investida covarde e genocida das tropas brasileiras. Muito mais passional que Abramo, Reed e Euclides fez Edgar Peréa, da Rádio Caracol da Colômbia, que num olimpo de histeria e felicidade, chorou o gol do atacante Rincón no último minuto contra a Alemanha. Gol este que classificou a Colômbia para a fase seguinte da Copa 90 de futebol.
Cada um a sua maneira ou estilo, os jornalistas acima buscaram ser fiéis o máximo ao que viram e ouviram. Trataram de se “distanciar” daqueles fatos para buscar a tal da isenção e imparcialidade. É claro que Edgar Peréa, se pudesse, pularia da cabine de rádio para abraçar Rincón, mas traduziu no melhor estilo latino a alegria de um povo que experimentava depois de muito tempo as emoções de uma Copa do Mundo. Nenhum dos quatro acima plantou coisas, inventou fatos, distorceu o que a sensorialidade de cada um os mostrou. Já o caso da CNN é singular. Os americanos transformaram uma suposta guerra num espetáculo televisivo e pela primeira vez de maneira explícita, escancarada e despudorada transformaram algo menor (um conflito bélico de ínfima proporção) num grande produto, altamente vendável. Assim a Notícia perdeu de vez a virgindade e virou artigo de prateleira.
No último dia 27 de novembro, sexta, o jornal Folha de São Paulo publicou artigo de César Benjamin, ex –assessor do presidente Lula desde os tempos da fundação do PT. Benjamim relatou no artigo que Lula comentou em 1994 que teria violentado um jovem no período em que esteve preso durante a ditadura brasileira. A estapafúrdia história depois foi desmentida, nada mais era do que uma das incontáveis brincadeiras de Lula. A Folha portanto, que sequer se deu ao trabalho de pesquisar o assunto ou levantar e ouvir outras fontes, plantou uma notícia, deu crédito a uma história sem pé nem cabeça, irresponsável, delirante. Que instituição é essa que deveria traduzir o que de fato está acontecendo hoje, mas que dá crédito a uma mentira de quase 30 anos? Veja e Estadão foram a reboque no embuste. O Globo, felizmente, ignorou a historieta publicada na Folha. E pensar que estamos ainda em 2009. Ano que vem será um ano dramático para imprensa brasileira: Mentiras transformadas em notícias; notícias transformadas em verdades.